O despertador toca de manhã dentro da realidade e volta tudo ao mesmo. Exactamente a mesmíssima coisa sem tirar nem pôr. Rame-rame, rotina, repetição. (A mim é aqui que me apetece trincar o mundo logo de manhã, Katilíssima.) Para quem veio de uma realidade paralela, a percorrer os trilhos da Rota da Seda como se vagueasse por fotogramas misturados num qualquer baú perdido, o regresso é uma ideia vaga. Imaginem a seguinte metáfora gráfica, em estilo BD: sou um cartoon enorme sobre o mapa mundo, a dar um passo da Ásia Central para Portugal; mas o passo que está lá atrás tem cor, enquanto que o pé e a metade do corpo que estão aqui aparecem ainda a tracejado incolor.
O meu espírito para esta viagem foi como uma folha em branco. Dos dois lados, o meu e o do grupo. Prontos a serem preenchidos com o que acontecesse, sem margens, linhas, quadrículas, regras, pontuação, nada. Totalmente livre, portanto. E foi com essa liberdade inteira que a folha se encheu. E eu ainda estou mergulhado nessa sopa caleidoscópica de episódios, a ouvir as gargalhadas da grupeta canalha, a cruzar-me com asiáticos sorridentes, a saborear mais um kebab de galinha ou a subir para o dorso de um cavalo no Quirguistão, sentindo-lhe o odor intenso a pele e cabedal enquanto o lago se espraia no horizonte à frente dos meus olhos até ao limite dos picos nevados. E isto é só um exemplo do que me acontece de cada vez que fecho os olhos.
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